
Por mais que as sensações que sentimos ao lado de alguém nunca mintam para a gente, conseguir decifrá-las ou perceber que estamos vivendo um relacionamento abusivo pode não ser uma tarefa fácil. Não só pelo fato de que a maioria dos sinais são sutis e controversos, e que culturalmente somos incentivados a acreditar que o amor é pura dependência emocional e que devemos aceitar e perdoar tudo do outro, mas porque muitos foram ensinados a normalizar e romantizar serem tratados com desprezo, negligência ou a aceitarem humilhações como gestos de amor.
A maioria das pessoas que aceitam na vida adulta relações marcadas por abuso, geralmente vêm de uma história de vida marcada por negligência emocional, abandono, rigidez excessiva, abusos físicos ou psicológicos. E, infelizmente, alguns sofreram isso dos próprios pais ou em casa aprenderam que relações são assim, e hoje carregam crenças distorcidas e nocivas sobre a realidade, si mesmos, relações e aos outros. Portanto, internalizaram de alguma forma que o amor é algo difícil, que não são merecedores de amor ou que precisam “salvar” o outro de sua escuridão, não importando o nível de destrutividade desse outro.
Se você se sente constantemente exausto(a) emocionalmente, confuso(a) sobre a sua própria identidade e percepção da realidade, incapaz de confiar em seu julgamento, ou preso(a) em um ciclo de dependência emocional, codependência, baixa autoestima e subjugação, é provável que você esteja lidando com as feridas deixadas por um ou mais vínculos onde o respeito, a reciprocidade e o limite foram cronicamente violados.
Se na sua relação atual, além de sentir essas sensações você sente que não tem voz ativa para expressar suas ideias, limites e necessidades, que precisa pisar em ovos para se comunicar e precisa constantemente se subjugar para evitar conflitos e receber amor, você precisa urgentemente se conscientizar.
Quando falamos de abuso, não falamos apenas dos casos de agressões físicas, falamos também do abuso emocional que, por mais que não deixe marcas na pele, deixa cicatrizes profundas na estrutura psicológica. Ele se manifesta através de: manipulação, gaslighting (distorção da sua realidade), indução de culpa, isolamento, desvalorização constante e, acima de tudo, a privação do amor incondicional quando você não corresponde às expectativas do outro.
Desde quando ainda somos crianças e somos expostos a um ambiente disfuncional em uma fase da vida onde ainda não somos capazes de nos proteger sozinhos. Para sobreviver ao ambiente tóxico, desenvolvemos defesas psicológicas que se tornam padrões de repetição na vida adulta. Por um tempo elas podem até funcionar e nos ajudam a sobreviver naquele ambiente abusivo, mas uma vez que desenvolvidas, elas não se atualizam com o tempo, e quando adultos são justamente elas que nos impedem de alcançarmos relações saudáveis. Fora que nosso sistema imunológico se acostuma com a euforia das sensações causadas por essas relações, com isso, podem nos levar à atração por mais relações disfuncionais e nos deixar cegos para os sinais mais óbvios de comportamentos que nos machucam.
Este texto é um convite para você entender como esse ciclo se formou e, finalmente, iniciar o Resgate da sua Identidade que foi silenciada e ensinada a aceitar essas relações como genuínas.
O Papel do Apego na Aceitação de Relações Disfuncionais
O apego seguro é o que considero a primeira necessidade básica de nós seres humanos. Ele é o resultado de um cuidado suficientemente bom, consistente, previsível e responsivo na infância. Ele gera a confiança de que você é merecedor de amor e proteção. Pessoas com apego seguro possuem a habilidade inata de identificar e rejeitar padrões abusivos, pois a referência delas para o amor é a estabilidade e o respeito mútuo. Por isso que a aceitação de uma relação abusiva na vida adulta raramente é um acaso; é, na maioria das vezes, a repetição de um padrão aprendido.
Quando o cuidado na infância foi inconsistente, imprevisível ou amedrontador, o cérebro desenvolve um Estilo de Apego Inseguro:
- Apego Ansioso: Você aprende que precisa lutar e se anular para conseguir atenção e afeto. Na vida adulta, você pode ser atraído(a) por parceiros distantes ou abusivos, pois associa o drama e a dificuldade à prova de que o amor precisa ser conquistado através do esforço e do sacrifício.
- Apego Evitativo: Você aprendeu que a expressão de emoções e necessidades levam à rejeição, retalhamento ou ao distanciamento. Na vida adulta, você pode tolerar a indisponibilidade emocional crônica ou a negligência do parceiro. Você prioriza a distância e a autonomia, aceitando um vínculo superficial ou frio como “normal”, o que facilmente se encaixa na dinâmica de um abuso por negligência.
- Apego Desorganizado: Você aprendeu que as figuras de segurança são, ao mesmo tempo, fontes de amor e consolo, de imprevisibilidade e medo. Na vida adulta, você pode tolerar a imprevisibilidade, a raiva e a manipulação do abusador porque essa dinâmica caótica, estranhamente, parece familiar e é o único modelo de “intimidade” que você conhece.
Entendendo a Transformação – O Resgate Interior
Esse processo, que chamo de Resgate Interior, é o caminho de curar aquela criança desamparada, machucada e perdida que vive dentro de você e, com essa atitude, resgatar a sua identidade que foi silenciada no passado em troca de aceitação e sobrevivência.
Nessa jornada, você aprende a subverter a lógica da relação abusiva e a construir uma base interna inabalável:
- O Valor da Conscientização: Você internaliza a verdade de que você não é um defeito ou um problema. Você foi apenas a criança que precisou desenvolver mecanismos de sobrevivência para lidar com um sistema doente ou um ambiente abusivo. Ou que, por conta do contexto e referências que tinha, internalizou crenças distorcidas sobre relações. A conscientização permite que você pare de se culpar pelas próprias falhas e dos outros, desfazendo a programação da indução de culpa, e comece a se tratar com mais amor e compaixão.
- Abandono da Identidade de Vítima: Você entende que, embora sua criação possa ter sido insuficiente, que seus pais tenham sido abusivos ou que tenha passado por diversas injustiças na vida, seus cuidadores fizeram o que podiam com os recursos emocionais limitados que tinham. Assim como você ao internalizar crenças distorcidas e disfuncionais sobre aspectos importantes da vida. Isso de forma alguma diminui ou anula sua dor, mas permite que você se desfaça das amarras que prendem você a essa história e, finalmente, consiga seguir em frente com autonomia.
- Aprende Sobre Limites Inegociáveis: Não existem relações satisfatórias sem o estabelecimento de limites saudáveis. Você aprende a não se ultrapassar mais para agradar, e a definir e manter o que é aceitável e o que não é em seus relacionamentos. Essa habilidade é o seu mecanismo de defesa mais forte contra a manipulação e o abuso, pois você não negocia mais o seu bem-estar e passa a preferir perder relações em nome da própria saúde mental. Algo que alguém com apego seguro faz com facilidade.
- Conhecer a Si Mesmo: Passando por essa transformação, você resgata aquela criança cheia de sonhos, leveza e espontaneidade que vive dentro de você. Ao fazer isso, você desenvolve a segurança e a clareza sobre quem é, o pensamento independente e o senso crítico — as ferramentas que o gaslighting, a manipulação, o abuso e a indução de culpa tentaram apagar todo esse tempo. Garanto que você nunca mais se atreverá a trair a si mesmo por medo de perder o outro.
Como a Terapia Pode Ajudar?
Um terapeuta especializado nas sequelas causadas por relações abusivas, tanto familiares, infantis e amorosas, é o único capaz de fornecer o vínculo saudável e o ambiente seguro capaz de te ajudar a resgatar sua identidade e curar suas feridas. Não hesite.
Você não precisa encarar essa jornada sozinho(a), estou aqui para oferecer o espaço seguro e as ferramentas necessárias para essa profunda e intensa transformação. Abordo com profundidade esse assunto no meu livro que você pode adquirir agora mesmo, mas também podemos iniciar um processo terapêutico juntos totalmente individualizado para você.
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